Ich bin der "Kanalizer"
Há muito...muito tempo....numa galáxia distante....enfim o que quero dizer é que há muito tempo...quando andava na faculdade criou-se um mito...um mito urbano sexual: Ich bin der "Kanalizer".

No ISCSP a actividade era grande...estudava-se muito...e nessa altura surgiu um autêntico ícone sexual, um poderoso Krakatoa explosivo, uma verdadeira "bola de terror canino", um Rocco Siffredi "aportuguesado", uma genuína "Furchmaschine", einen "Sexual Klempner", que se revelou ser a minha pessoa.
Adepto e fã dos filmes da série B - Porno, desde cedo mostrei inclinação para a "arte do prazer" e para a "práctica do pompoar".
Então, chegado ao 1º ano e verde como uma maçã à espera da primeira dentada, deleitei-me com as jovens nortenhas (nessa altura ainda não havia em Portugal jovens russas) sedentas de mostrar à capital o bom produto nacional.

Tive de me esmerar. E oiço essa máxima que até hoje (desde 1989/90) ecoa nos corredores daquela "ultramarina faculdade": Ich bin der "Kanalizer"!
Refira-se que esta famosa frase provém de um não menos famoso filme em que o personagem principal (sim este tinha enredo) era um "canalizador" que digamos "limpava a canalização" das moçoilas que viviam naquela "república". O original era sueco, legendado em inglês mas falado em alemão, pelo que a tradução (extremamente correcta...) era realmente uma verdadeira peróla...e na primeira cena (lá está o enredo) surge um jovem vestido de canalizador e ao abrir-se a porta diz Ich bin der "Kanalizer"!
Maravilhosa tradução, momento que se imortalizou naquela mente limpa e pura de um jovem estudante e daí surgiu um alter-ego que rendeu o 1º lugar no ranking das festas iscspianas e a criação de mais um mito urbano.
Saudações iscspianas!
Eu sou a Rosa Neto, esta noite faço menos nove meses. ‘E hoje o dia zero da minha existência. Tragédia é o meu signo. Engano é o meu fado. O destino está traçado.
ResponderEliminarAo contrário dos outros que são filhos de emoções como o amor, a paixão ou o acaso, eu sou filha de uma orgia de sentimentos que estavam totalmente deslocados do clima habitual no acto fértil. O leito da criação, o quarto está completamente cheio de inspirações surdas. Do lado feminino, as atitudes: a hesitação, a ignorância, a apatia, a cobardia, a vergonha e a alucinação; participantes masculinos, o silêncio, o receio, o medo e o delírio; juntaram-se todos numa estranha e fugaz comunhão, um instante. um momento. O ambiente desta malta já não é muito convencional mas a parte mais curiosa é ele instalar-se num quartinho de um lar familiar de tradicionais hábitos domésticos e civilizadas relações sociais, onde o milimétrico planeamento familiar não tinha permitido atribuir mais do que uma unidade ao item natalidade, objectivo já devidamente cumprido e concretizado na minha mãe Olivia.
Normalmente quando se juntam, estas humanas reacções não se traduzem em comportamentos muito férteis, pelo contrário. No meu caso houve uma excepção.
Eu sou a excepção. Eu preferia pertencer á regra. Deixa-me tentar traduzir a história em português, desvendar um pouco deste verdadeiro mito alfacinha:
Esta é a casa da minha mãe, onde ela vive com os pais. È filha única, muito prendada e trabalhadeira. É uma casa igual a tantas outras casas de famílias trabalhadoras, honestas e religiosas. Fica perto do centro de Évora. Aqui o homem é o chefe da casa. Neste caso é um mecânico que trabalha numa oficina famosa (é a única), mesmo junto á casa dos Castros. È um bom e forte homem, simpático mas não gosta de ser contrariado. Nunca foi violento em casa, mas já partiu algumas cabeças fora de portas. A mulher e a filha, Olívia (minha mãe) são as chefiadas e fazem tudo o que podem para manter o lar feliz.
Custa-me sempre recordar este episódio, mesmo que a recordação não seja minha, mas sim da minha tia, que a ouviu da enfermeira que assistiu ao meu parto. Está de certeza, ou pelo menos deve estar bastante exagerada, mas as provas físicas do acto existem - se conseguisses ver a minha fisionomia ias ficar contente por seres filho do amor, além de que ias mais facilmente acreditar no que te vou contar – não é que eu seja horrível, não, nada disso! Não sou muito bonita nem pouco feia, sou assim-assim.
Em relação á minha aparência, para fazeres uma ideia posso dizer-te que muitas pessoas, principalmente os mais velhos, pensam que tenho alguma deficiência mental e comunicam comigo como se eles próprios fossem mentecaptos; nunca consegui compreender muito bem isto, o meu espelho nunca me mostrou nenhum sinal de deficiência, não acho que tenha cara de atrasada mental... este comportamento repetiu-se tantas vezes que acabei por começar a tirar proveito dele. Mais vale ser um burro inteligente do que um burro entre inteligentes, como já disse alguém.
Voltando ao que interessa, é mais ou menos este o filme:
Tempo menos sessenta minutos:
A Olívia, minha mãe está a passar pelo dia mais estranho até agora vivido:
“Não te preocupes querida, a partir de agora vai funcionar como um relógio, quando isso não acontecer, é mau sinal. Já viste como é que eu faço... Podemos escolher pensos ou então os tampões, que são os que eu uso, muito mais cómodos... tens é que ter cuidado para não o perderes quando usares, não podes cortar aquele cordel. Chegou o dia em que já não és menina, embora para mim o vás ser sempre. Como te sentes? Quando foi comigo fiquei em pânico durante uma semana!”.
“Eu fiquei em pânico quando me ia afogando na ribeira. Hoje sinto-me cheia de medo. Receio de nada, assustada com tudo e com medo de algumas coisas. Posso dormir contigo?”
“Sabes que quando o teu pai chega tarde não gosta de surpresas... não sei se é boa ideia...”
“Só hoje???”
“Acho que não devia, mas afinal é o dia da nossa menina senhora. O Neto vai compreender. ...Ou não? Vá, vem lá e apaga a luz do teu quarto. Só espero que ele não venha aos caídos, senão é capaz de não dar por ti e te esmagar. De qualquer maneira, quando ele te for dar o beijo de boas noites ao quarto, vai dar pela tua falta e logo te procura. Logo se vê...”
”Posso dormir juntinho a ti?”
”Dorme, dorme... abraça-te, aconchega-te. Boa noite”.
“Até amanhã, mãe.”
Tempo menos trinta e cinco minutos:
Este é o meu pai, vai a caminho de casa a ouvir um cd rasca de bandas sonoras de filmes série B o “byte bit beat” no final de mais um dia alongo:
Hoje bebi mais um trago do que devia, abusei mesmo da 1920, se calhar foi a mistura com a cerveja... chhhhii... ainda bem que o carro não bebe... vamos lá com calma e devagar que só faltam umas ruas... esta mania de acabar o dia com um chazinho... e outro... e pagas este... o próximo é por minha conta, só mais um meio, escorrega como néctar... e os camaradas ainda foram continuar a festa... é-pá! Cabrão do gato! Ainda bem que vou a 20 á hora.... sschhi... isto não está fácil... calma já falta pouco. Lar doce lar á vista...
Olha olha, belo luar... Hoje sinto-me um verdadeiro D. Juan – esta música é melhor que pau de cabinda, ás vezes até fico entesuado só de ouvir! - hoje não escapas, Olívia! Dá cá iss’, querida!. Trava, tira a mudança, desliga, desliga luzes. Se calhar devia ter ido com os meus companheiros, é putaria garantida. Chave de casa. Sapatos. Vou fazer uma surpresa à Maria, uma poesia talvez, umas palavras românticas em sussurro bem encostado ao ouvido... não, não, é melhor uma boa recordação romântica... chhh... é isso mesmo, talvez chamar-lhe “minha vaquinha”, como antigamente... talvez, talvez, talvez.... nada disso, vamos lá com força, sem hesitar, quando entrar naquele quarto vou andar para trás no tempo, e tu também minha querida... a juventude está no espírito... velhos são os trapos... vamos a isto. E tu meu companheiro de sempre, meu guerreiro de cabeça erguida, vê lá se não me deixas ficar mal hoje. Hoje sou o verdadeiro D. Juan... mas com toque de garanhão lusitano! É preciso é ser duro, só os duros... vai sem perdão Neto, ela não vai resistir... D. Juan...
Tempo menos dez minutos:
Casa de banho. ‘Tás mesmo com bom aspecto ó Neto, tirando essas olheiras, o cheiro a trabalho, a barriga, o cabelo que fugiu. Pormenores sem importância. E o style?! Sanita. Chhhi... parece minúscula e fugidia daqui do alto... ena pá! ‘tou sem pontaria, não faz mal amanhã limpa-se. Pijama... este?... o que tem bordados?... o maiô?... não, não, nada diss’, hoje vou em pelo, vou... olha, olha! as minhas botas da sorte a rirem-se para mim... porque não ir com elas calçadas, só com elas?!? Ela vai delirar... “Querida, venho com as botas á grãfino!” Ela não vai resistir... e para dar ainda mais charme... perfume... hmm... só mais um pouco, agora no umbigo... cheira mesmo bem! Vai ser como no anúncio, daqui a pouco a vizinha boazuda do lado também quer entrar... cheiro a machão...
Uma passagem pela Olívia. “Boa noite princesa, desculpa não te ir dar um beijo de boa noite mas vou directamente para o leito da paixão, ter uma noite á antiga.” Foi com esta frase que o galã conseguiu engatar a chavala do bingo na telenovela de ontem, bendita novela que até serve para nos ajudar a convencer as gadjas..
E se fosse a cantar? Não, nada diss'. A minha voz é péssima e neste estado ia acordar toda a gente. Um sussurro no ouvido, vamos lá! Chii... tudo ás escuras, cuidado para não tropeçar no penico que a Maria só o despeja na 6ª feira...
“Maria, Maria! Mari-a.... Estás acordada? Tenho uma surpresa para ti!”
“...”
“Olá minha vaquinha, ainda te lembras de mim?... já não nos víamos há tanto tempo... anos. Mas sou eu outra vez, voltei a ser aquele atleta cheio de força e tu a minha deusa... ainda te recordas?... hoje podemos reviver esses tempos... não precisas de dizer nada... hoje sou de novo o teu D. Juan... fecha os olhos e imagina que vamos outra vez apanhar maçarocas verdes juntos. Lembras-te? Eu lembro-me... vês, sou eu... é incrível, até os teus cabelos me parecem diferentes, mais macios, até mais longos... bebi demais de certeza. Melhor! fica mais fácil reviver a recordação... parece mesmo que te estou a sentir tal como eras, tão rechonchudinha... sentes o mesmo? Não respondas... deixa-te levar pela imaginação... vamos reviver um dia, um minuto... aquele dia na barragem, lembras-te? tás a tremer? Acalma-te, sou eu... estou um pouco bêbado, mas estou bem, sinto-me muito romântico querida... junta-te mais aqui... sim... como é que isto é possível? Pareces mesmo... chhhh.... é fantástico não é querida, e da maneira que tu tanto gostavas... não digas nada...”
“...parece um sonho... chhhh... não te vires, deixa-te adormecer assim...sim...D. Juan... “
“...”
“rrrrssssrrrrrrrncsss...”
“Não chores Olívia... levanta-te que ele já adormeceu. Estás bem?”
“Foi horrível, mãe! O Neto fez-me mal!? O que é isto? O que é isto? Eu não quero nada disto... porque não me ajudaste? Eu queria gritar! O que é isto? E isto? Minha vaquinha? Não pode ser... o que é que vocês me fizeram? Ajudem-me! Ajuda!”
“não grites, vais acordar os vizinhos, e o teu pai!”
“acordar o meu pai?!? Só amanhã, bêbado de merda! O que é que me fizeram?! Socorro! Ajuda! Ajudem-me! Alguém me ajuda!”
“vá lá vá lá... toma isto que te vai fazer bem... isto foi só um sonho mau. Vai-te deitar Olívia, toma isso tudo são uns comprimidos bons para todas as dores, até as da alma. Isso mesmo. È só um sonho mau, já vai passar...”
Este é também o dia em que marco, a conselho da minha sábia avó, a minha viagem para Lisboa, a minha migração ainda no ventre materno para a grande cidade, a Capital, uma verdadeira cidade onde existe muito de tudo para todos, onde cada um pode desbravar os seu caminho para ser alguém, mesmo os filhos de ninguém, onde a oportunidade de viver melhor nos bate á porta em cada dia, local de liberdade onde o preconceito foi banido há muito, o melhor sitio para uma gravidez tão prematura.
Para o meu avô, a partida da minha mãe para Lisboa justificava-se por ter encontrado um trabalho óptimo em casa de uma amiga da cunhada da vizinha do Doutor Vinhais, que vivia em Lisboa, numa zona chique da parte antiga da cidade, a Mouraria. A Olivia podia assim contar com o amparo quase familiar para não se perder na loucura da cidade.
Para a minha mãe era a fuga para longe, para um sitio onde o meu pai e avô não a encontrasse, o que não foi nada dificil pois o meu pai nunca conheceu Lisboa e só viu o mar quando esteve a cumprir o serviço militar na tropa em Faro. Para o Neto, sair da sua terra natal era um pesadelo que ele não queria viver. “Deixai, deixai que a TeleVisão me mostra tudo o que preciso ver”.
A ideia que a minha mãe foi construindo acerca da zona chiquérrima que lhe tinham falado, onde ela poderia ter uma gravidez calma e um parto bem acompanhado, onde teria uma vizinhança em ambiente familiar, onde poderia passear tranquilamente para tomar uma cidreira numa das imensas pastelarias e salões de chá chiques e ba-ra-té-rri-mos, em nada se comparava com a pocilga que a esperava, uma casa miserável, um minúsculo apartamento, no rés do chão de um prédio de três andares com um sinal de perigo de derrocada na entrada onde da porta apenas sobravam uns nacos de madeira grossa cheia de buracos. Era uma casa nojenta, repelente, um ninho de ratos, completamente arruinada, um conjunto de rachas, buracos, fios eléctricos, torneiras ferrugentas e outras coisas mais, cheia de móveis e pequenos electrodomésticos recolhidos nos lixos da cidade, com um cheiro nauseabundo e insectos de espécies e tamanhos que ela nunca tinha visto, além de uma quantidade incontável de gente que entrava e saía, uma televisão sem som e um cheiro pestilento, mais intragável que os vapores dos estrumes a marinar. Esta mudança tão radical não lhe permitiu sobreviver ao meu parto, nem sei como é que ela resistiu á gravidez. Sobreviver sete meses naquele ambiente fétido só foi possível porque a minha mãe entrou num estado de quase total autismo, uma apatia física e mental em relação a tudo e todos. Cerca de duas horas após ter chegado, sentou-se num sofá com três pernas e um parafuso a fazer de quarta e ficou ali parada, estática, amorfa, desfaciada, muda, flácida, curvada, consumida quase ressequida e, o que ainda tornava mais estranho aquele retrato eram os olhos sempre abertos, ou melhor um aberto e o outro semi-cerrado – mesmo a dormir - até morrer. Felizmente para mim, ela só se deixou morrer depois de me libertar daquele útero putrefacto.
Ficou sentada num sofá durante todo o tempo. Não dizia palavra. Comia o que lhe dávamos á boca. Muitas vezes vomitava. Obrava para um saco que lhe punham e mudavam a cada manhã, de dois em dois dias, todas as semanas, quando calhava. Ficou com um cabelo enorme, que os que pela casa passavam se divertiam ou entretiam a pentear e a tirar os bichos que se entrelaçavam nele. Tomou banho pelo menos uma vez por mês, banho de gato diga-se, dado com uma esponja e detergente para a loiça. Emagreceu, atrofiou musculos e consumiu-se nas poucas gorduras que tinha, perdeu a cor da pele e dos olhos. Cairam-lhe quase todos os dentes, um dia um, uma noite três, uma manhã engasgada com mais dois, não lhe faziam falta. Fez silenciosa e sozinha o meu parto, com as mesmas dificuldades com que fazia as outras necessidades e só por acaso não nasci no saco do supermercado que não era mudado havia já três dias. Felizmente que algum dos habituais da casa escorregou no chão ensopado quando se levantou a meio da noite e estava suficientemente lúcido para chamar a vizinha que trabalhava na farmácia e que também provocava abortos a preços baixos e com material trazido para casa por distracção ou gentilmente oferecido por fornecedores tão generosos quanto curiosos em relação aos aspectos comerciais da farmácia, que me cortou o cordão umbilical. A Olívia pariu e morreu. Se o cordão umbilical tivesse ficado mais um minuto eu tinha morrido com ela.
Hoje tenho 1 dia.
Ainda não recebi flores por ter nascido nem presentes de parabéns, nem beijinhos, abraços ou carinhos de meus pais. Recebi a visita dos senhores doutores da ambulância dos bombeiros que me levou para o hospital mais próximo. Estou cheia de mazelas e infecções impronunciáveis. Sou novamente uma excepção em termos de mortalidade infantil, já podia e devia estar no outro mundo. Em vez de me olharem com o carinho do costume dedicado aos recém nascidos, sinto-me observada como um projecto cientifico: todos querem ver para comentar e analisar; ninguém me quer tocar, beijar, abraçar ou aconchegar; “já viste a cara dela? Mais uma atrasada mental para este mundo! Já há cá poucas, chiça! Estava melhor se tivesses ido com a tua mãe! Ai minha nossa, tanta miséria, ai,ai...”.
Quando eu tiver alta médica, ou seja quando alguém convencer a Dra. que mais vale arriscar uma recaídazita de algumas das minhas mazelas do que deixar a enteada da amiga da enfermeira, aquela que é mãe da Arquitecta que está noiva do sobrinho do Senhor Director, sem uma cama para fazer uma desintoxicação, exactamente a cama que estou a ocupar (provavelmente quem vai providenciar isso é aquela aprendiz de ajudante de assistente social, que usa luvas para me dar “carinho e conforto” e nunca esquece de se cobrir integralmente com uma bata tipo cirugião), vou para uma instituição de acolhimento onde vou ter todo o amor e compreensão a que as crianças têm direito, vai ser como uma grande familia.”
«Hallo ich bin der Klempner, ich soll hier ein Rohr verlegen.»
ResponderEliminarIsto vindo de um gajo com uma picha do tamnaho de uma noz...
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